07 junho 2017

34

Passaram sete dias desde os meus 34 anos certos. 33 anos e 17 dias desde que o meu pai endereçou uma carta à tia que vivia em Lisboa a dar conta do nascimento do meu irmão. Dizia-lhe que o mundo que me circundava se resumia a duas palavras: cão – que dirigia, especialmente, ao recém-nascido, aos cães, gatos, galinhas e formigas - e burro – para designar os próprios mas ainda as cabras, as ovelhas, as vacas e qualquer objecto de maior dimensão. Papá e mamã eram, nessa altura, extensões de mim própria.

Contava o meu pai, no seu bater pulsante de teclas sobre a máquina de escrever que o meu avô materno trouxera da Alemanha, que a menina já exibia um feitio digno de muitas palmadas. Aos 11 meses apresentava demasiada personalidade para um corpo ainda tão pequeno. Curiosa. Refilona. E, acima de tudo, teimosa. Herdara, de forma somada, o pior dos dois progenitores.

Encontrei a carta, dactilografa há mais de três décadas e recuperada pela minha mãe após a morte da tia do meu pai, dentro de um livro numa das pilhas junto ao sofá. E escolhi a véspera do meu aniversário para a ler, antes de me voltar a tornar na irmã 11 meses e 13 dias mais velha.

Imaginei o meu pai debruçado sobre o tampo de madeira da mesa da sala, à luz ténue do candeeiro, madrugada adentro agarrado à máquina, a escrever, orgulhoso das façanhas dos filhos. E o ruído das letras a caírem sobre o papel quebrando o silêncio da casa. Olhei para a minha mãe e dei-lhe um abraço. E também eu me senti orgulhosa do que sou.

Aprendi com os meus pais a distinguir os verdadeiros eixos da vida. E no dia tempestuoso em que, contrariada, ousei pôr-me em causa, questionando os ensinamentos que me transmitiram, foi através de uma carta, escrita à distância de 33 anos e 17 dias, que o meu pai me recordou dos mesmos. Parece que os progenitores encontram sempre forma de nos confortar e conduzir.

A menina que, 33 anos e 17 dias (mais os sete que entretanto passaram) depois, se curva, madrugada adentro, sobre o computador herdou muito mais que a soma da curiosidade e da teimosia dos genes. Herdou a sabedoria para distinguir o importante do acessório. E, principalmente, a certeza de que se manterá fiel a si mesma. Porque há o importante. E há o acessório.

Tornei-me 33 anos e 17 dias (mais os sete que entretanto passaram) mais curiosa, mais refilona, mais teimosa. E na véspera do meu trigésimo quarto aniversário lembraram-me o quão importante é orgulhar-me disso.

Tornei-me 33 anos e 17 dias (mais os sete que entretanto passaram) mais sonhadora, mais inconformada, mais inadaptada. E orgulho-me disso. Porque a revolta sempre será um acto de coragem. E a solidão é a mais sábia das companhias.

Enquanto os putos do bairro iam à catequese para, em casa, chamarem nomes aos avós, eu inventava a tabuada do 17 e do 79 e escrevia histórias à máquina. Da mesma forma que enquanto alguns se preocupam em tirar selfies com a banda como pano de fundo eu tento escutar a música. Porque há o importante. E o acessório.

De um modo geral, nunca senti grande afeição pelo ser humano. E cedo percebi que não tinha qualquer intuito de integração. Quando o meu pai me explicou que, contrariamente a todas as regras gramaticais, Liberdade e Amizade se deveriam sempre escrever com maiúscula percebi a mensagem.

Gosto de gente estranha. Gosto de gente esquisita. Gosto de gente desconfortável. Gosto de gente desequilibrada. Gosto de gente solitária.

Gosto de sonhadores. Gosto de curiosos. Gosto de lutadores. Gosto de rebeldes. Gosto de loucos.

Gosto de gente imprevisível. Gosto de gente impulsiva. Gosto de gente com alma.

Gosto de gente simples na forma de estar, complexa na forma de ser. Gosto de gente autêntica. Gosto de gente que é gente, imperfeita e genuína.

E não gosto de clichés. Não gosto de gente-cliché. Não gosto de frases feitas. Não gosto de convenções. Não gosto de protocolos. Não gosto de palmadinhas nas costas. Não gosto de beijos que não tocam a cara. Não gosto de gente que goste de muita gente.


Porque gosto do importante. Não gosto do acessório. E não há maior herança que essa.

25 julho 2016

pousio

Já não esvoaçam pássaros negros. Não há olhos de veios sangrentos a inundar-me a vista. Não há monstros, de silenciosa persuasão, a empurrar-me os passos por carreiros sempre errantes. Não há fantasmas a alimentar-me de água salgada a raiva. A dança da loucura, esquizofrénica e demente, deixou de me embalar.

Não há mais vocábulos gritantes, afoitos e desenraizados, a enrolarem-se-me na língua, cuspindo ofensas em chamas. Não há punhos cerrados sobre a carne ao comando do pensamento desfeito. Nem ódio com cheiro a memória a soltar-se-me dos poros, a abandonar a pele e a envolver, de rompante, o ar.

Há o cansaço que pesa ainda nos ossos a história. Se o passado tentou atropelar o presente foi porque o consenti. Mas, sem pássaros negros, olhos de veios sangrentos, monstros, fantasmas e loucura, a consciência retoma, sem pressas, a soberania. E a calma ganha terreno à dormência. As pedras voltam ao trilho para deixar antever a estrada. E eu caminho.

Há ainda aquela dor miudinha que acompanha a saudade. Que sufoca devagarinho para defender um propósito, fazendo-se notar. Mas que já não é estridente, aguçada, cortante. Já não esventra, não perfura, não desassossega. Não mata. Só mói.

Guardo ainda as tuas fotografias. Não são estáticas. Tiveram sempre um movimento que é infinito, perpétuo. Têm cheiro e temperatura e tonalidade e luz e sombra, daí permanecerem vivas. “Às vezes as fotografias que tenho de ti duram três passos. Às vezes duram um acorde. Às vezes duram a suspensão do ar entre uma inspiração e uma expiração. Às vezes duram o silêncio todo. Às vezes cabes nelas inteiro. Às vezes não. Em muitas estás em pedaços, esquissos, frestas, que só eu sei a que parte pertencem.” Lembras-te?

A escuridão vai desvanecendo, num arco-íris de tons cinzentos que aclaram. Depois do pousio, os dias retomarão a cor. Hão-de florescer ao seu próprio ritmo. Como nós.

Aquieta-me saber que nos deixámos livres. Que nos libertámos para redescobrir quem somos. E que a despedida pôde ser medida em beijos. As últimas linhas que escrevi sobre ti contrariaram tendências, não sabendo a lágrimas ou a desgosto. Foi com um “amo-te”, seguido do teu nome, que pus fim a tantas páginas doridas. Dir-te-ei que te amo muitas vezes em silêncio. E, sem cobranças, talvez consiga voltar a erguer-me e a dizer que também gosto de mim.

02 dezembro 2015

castigo


O tempo que te dou, na ilusão de me pertencer, pesa-me mais que a ti. É mais demorado. Corpulento. Tem espinhas e caroços. Sabe a sal. É ácido e corrosivo. Mastiga-me, morde-me, espezinha-me.

Castigo-me na tentativa vã de te punir. Vítima e carrasco. E a balança da dor – termómetro efervescente da raiva – pende errante, desnorteada, descalibrada, tendenciosa. Acalco as minhas próprias cicatrizes. Realçam-se os medos que as levam à fossilização. Assentam na angústia. E firmam-se, obedientes, perpétuos.

Não verto lágrimas. Secaram-se-me por dentro no poço desmanchado do peito. As fendas reabrem, sem prazo para sarar. E o vazio, lotado de mágoas, é doloroso. Ocupa volume igual ao motivo da perda. E, por isso, eu perco. Perco sempre. Perco-me sempre no labirinto turvo do pesar. Vergo-me à agonia e mirro. Morro. Mas a amargura não se retrai. Sobrevive, desembaraçada, mutante, imune.

E a memória não me engana. Desembacia-se. Esfrega-se na brancura gélida para me deixar ver. Enfrenta-me, desafiadora. E se lhe levanto a voz ergue-se, altiva e dominante. Mutila-me. Fere-me a vista. Assalta-me os restos já mortos do sossego. Incita-me. Condena-me.

E eu anuo.

01 dezembro 2015

implosão

Não tenho portas nem janelas. Não tenho fendas, sombras, interrupções ou correntes de ar. Não há vértices ou esquinas. Não sopra o vento nem entra a luz. Não sobra o espaço. Não sai o eco.

Não há música ou silêncio. Só o ruído. O ruído. Repetitivo, insistente, monocórdico, incessante. O ruído. E o eco. E o fumo. Doentio. Maléfico. Tóxico. Nocivo. Viciante.

Não há sal na erosão da pele. Não há sol. Não há sul. Não há norte. Não há dor na frigidez da carne. Não há sangue. Não há morte. Não há distância. Não há extensão. Não há saudade. Não há corrosão.

Não roo os ossos que não os alcanço. Não rasgo os nervos ou puxo tendões. Não esventro entranhas. Não cavo crateras. Não ceifo emoções.

E os músculos que não se movem. Inflexíveis na perda de elasticidade. Teimosos. Dementes. E o cinzento que escurece. Enegrece, sujo, cansado.

Silencio-me.

Impludo.

05 novembro 2015

carência


Falta-me a força na ponta da caneta. Falta-me agilidade nos dedos. Falta-me motivo nas letras. Faltam-me naufrágios. Turbulência e distúrbios. Falta-me o ruído. O risco. O desconcerto. O desencanto. O desalento. O desconforto.
Falta-me a falta de Norte. A ausência de fronteiras. O mar agitado. O desassossego. Faltam-me descolagens sem cinto. Travagens bruscas. Atracagens atribuladas. Falta-me a estrada e as esquinas. Sobra-me o ócio.
Faltam-me náuseas e nódoas negras. Faltam-me dores e lamentos. Faltam-me problemas diferentes para as mesmas soluções. Falta-me a falta que me fazia o que está longe. Falta-me o ar.
Falta-me vontade quando me sobra tempo. Sobra-me cansaço quando me falta inquietação. Foge-me o desconsolo. Assenta-me a letargia. E eu mirro. Afundo-me no assento cavado deste sofá, já moldado à minha figura. Copio e colo. Copio e colo. Copio e colo.
Assisto à passividade mórbida do curvar metódico dos ponteiros. Acompanho a lentidão. Encosto-me. Encolho-me. Deixo-me talhar. Sou filtrada. E o que se separa esvai-se no fumo corrupto de mais um cigarro. Desaparece.
Falta-me a falta dos outros algemada à minha própria ausência. Falta-me a fome. Falta-me a sede. Falta-me a míngua. Falta-me a saudade. Falta-me o medo.
O mundo cresceu. Não me cabe nos braços. Falta-me lembrar-me que o quero perseguir. Falto em mim.

08 outubro 2015

Tóia


No quintal da Tóia havia um tanque de pedra à sombra de uma figueira. Havia uma outra árvore, menos robusta, encostada à qual construímos, um dia, uma cabana. Lá dentro guardámos um tapete e uma cafeteira velha e, nessa tarde, foi tudo o que eu, o meu irmão e o Júlio precisámos para sentir que tínhamos uma vida.
A casa da Tóia não era feita de tijolo nem assentava a direito no chão. Vista de fora destoava de todas as outras. Parecia inclinada. Às vezes caíam bocados da parede da rua. O chão era vermelho. Vivo e frio. Na casa de entrada havia um sofá, rijo e comprido, uma poltrona e uma mesa quadrada de madeira. Do lado direito dois degraus altos davam para o quarto. Seguia-se a cozinha e mais duas casas sem nome, e sem porta, até ao quintal.
A casa da Tóia era diferente de todas as casas que eu conhecia. Não tinha banheira nem frigorífico. Não tinha electrodomésticos. Não tinha janelas por isso também não tinha luz. Os banhos eram dados num alguidar azul, com água aquecida no bico do fogão. O açúcar, a manteiga e o leite eram guardados no parapeito da chaminé. Havia candeeiros a petróleo e um armário, de portas verdes, com copos pequeninos.
A Tóia era diferente de todas as pessoas que eu conhecia. Tinha muitos anos. Muitos anos e muitas rugas. Vestia-se sempre de preto. Saia, meias-calças, blusa, casaco e lenço na cabeça. Verão ou Inverno. Saia, meias-calças, blusa, casaco e lenço na cabeça. Nunca lhe vi a forma do cabelo nem a cor dos braços.
A Tóia era a pessoa mais velha que eu conhecia e por isso era especial. Trazia sempre doces dentro das algibeiras. Rebuçados embrulhados num plástico vermelho às bolinhas ou tabletes de chocolate. Era baixinha e movia-se de costas curvadas, mas nunca me pareceu que lhe custasse subir a ladeira do relógio. Nunca andou à escola nem aprendeu a escrever o nome. Chamava-se Antónia Júlia. Mas para nós foi sempre a Tóia.
A Tóia ofereceu-me as minhas primeiras canetas de bico-de-feltro – um pacote de seis da Mollin - e ensinou-me a fazer uma omelete. Aos fins-de-semana dava-me sempre cinquenta escudos. E não hesitava em dar mais vinte a cada um dos vizinhos que estivesse a brincar comigo. Aos dias de semana, quando eu a visitava depois da escola, comprava-me uma empada ou um salame.
A primeira vez que me lembro de cantar foi na sua casa. “A Minha Casinha”. A porta estava aberta e o sol batia nos ladrilhos. Lembro-me de ver o marido da Tóia sentado no sofá mas é aí que temo que a memória me atraiçoe. Talvez essa parte seja fruto do próprio imaginário porque, tanto quanto me contaram, o marido da Tóia morreu na altura em que eu nasci. Sei que se chamava João e que não era boa pessoa.
A Tóia dava-me sempre a mão quando andávamos na rua. Levava-me do lado passeio. No dia em que percebi que ela era a pessoa mais velha que eu conhecia mudámos de posição. Ela dava-me a mão mas era eu que ia do lado da estrada. Por uma questão de segurança, lembro-me de pensar.
Quando mudámos de casa e deixámos de a ir ver todos os dias a Tóia carregou-se ainda mais de preto. Mais do que na roupa passou a exibi-lo na alma. A Tóia era minha tia-avó e nunca teve filhos. Era a pessoa mais velha que eu conhecia e por isso eu tratava-a com o respeito de um monumento. Pouco depois morreu e os meus pais não me deixaram ir ao funeral. Lembrar-me-ei sempre dela, de olhar meigo, sorriso doce e chocolates nas algibeiras. Saia, meias-calças, blusa, casaco e lenço na cabeça.
Hoje fui ao centro de saúde e vi muitas Tóias. Quis abraçá-las a todas. Quis levá-las a todas pela mão. Elas do lado do passeio. Eu do lado da estrada. Por uma questão de segurança. Porque todas as Tóias deste mundo têm o direito de ser amadas e protegidas. Como a minha foi.

09 setembro 2015

os outros

Vejo-os de braços erguidos. Punhos cerrados. Lábios ardentes. Sedentos. A espumar pelos cantos da boca. A salivar. Erguem os braços e gritam. Uivam, de tão entorpecidos que andaram. E o ódio é ensurdecedor. E ecoa. (Agora é que é!) Palavras certas. Certezas. Porque as ouviram de alguém, que as ouviu de um outro alguém, ditas, em primeira mão, sabe-se lá bem por quem. Mas eles sabem. E a (sua) verdade é soberana. Absoluta.
 
Erguem os braços, gritam e marcham. Passo certo. Confiantes. Alinhados. Efusivos. Juntos são mais. E mais são maiores. Maiores valem mais. Rebanho domado. Exército moldado. Matilha feroz. Famintos de razão. Cegos de racionalidade. Marionetas!
 
Vejo-os de braços no ar. Agitadores. (Cães raivosos!) Propagandistas. (Palhaços!) Detentores da experiência. (Ignorantes!) Conhecedores de causa. (Idiotas!) Erguem os braços e uivam – os profetas. Patetas!
 
Envergam a verdade. Sempre a verdade. Respiram soberania. E falam dos outros. Os outros e os maus. Os outros que são os maus. E eles - que são bons (e espertos) - sabem-no. Obtusos! Ridículos!
 
E o medo. O medo que assusta. O medo que amedronta. O medo que apavora. Ai, o medo! Ai, que medo! Mas enchem o peito e lá vão, com medo e tudo, a encabeçar o pelotão dos revoltados. Cobardes!
 
Os que vão atrás não têm medo. É só receio. É receio, que é aquela coisa mais portuguesinha, de gente que nem para ter medo a sério serve. Têm receio e isso é mais que suficiente para se juntarem à causa. Antes isso do que nada. Antes isso que outra coisa qualquer. Que a época dos charlies já era e as pessoas agora querem-se é cultas. Cultas e (in)formadas. Trogloditas!
 
E é o naufrágio da humanidade partilhado até à exaustão no corpo morto de uma criança. Mas espera lá… É que, se não tivesse morrido, teria vindo cá parar. E só no Porto há uma centena de crianças a dormir na rua. Portanto, ainda bem que morreu. Ainda bem que morreu porque, passadas 48 horas, a moda já mudou e a gente tem é de se afirmar. E se é para ser que seja agora. É que o europeu de futebol ainda está longe. E nós somos Portugal. E primeiro estamos nós. E as eleições estão à porta. E o PNR mostra-nos toda a verdade. (Nenhum dos adjectivos que conheço reflecte verdadeiramente aquilo que me apetece chamar-vos. Baldes de merda fica muito aquém do desejado, acreditem!)
 
O meu pai ensinou-me o significado de liberdade. Assumi que, mesmo não concordando com determinada opinião, lutaria pelo seu direito à expressão. Hoje quebro essa promessa. E, ao quebrá-la, aproximo-me daquilo que abomino. Mas dessa aproximação ideológica tenho apenas receio. Medo - medo daquele que assusta, que amedronta, que apavora - tenho de vós, que hoje me rodeiam. Que são marionetas. Cães raivosos. Palhaços. Ignorantes. Idiotas. Patetas. Obtusos. Ridículos. Cobardes. Trogloditas. Baldes de merda. Vocês, sim - que vivem na porta ao lado, que frequentam o café da esquina, que partilharam comigo uma carteira na escola, que ouviram a mesma canção -, metem-me medo. E nojo. E repugnância. E repulsa. Para mim, são vocês os outros. E, por isso, é de vós que quero distância.

26 julho 2015

avó

A minha avó teve sempre 68 anos. Estou certa de que terá sido mais nova. Tenho a certeza de que ultrapassou essa idade. Mas, no meu inconsciente de menina de franja, a minha avó tinha, todos os dias, 68 anos.
 
Chamava-se Isabel. Isabel Januária, como, às vezes, sublinho para enaltecer a tremenda falta de gosto da minha família na escolha de segundos nomes para as suas meninas. Maria Inocência e Emília do Sacramento de um lado. Isabel Januária, Carminda Francisca, Antónia Júlia, Damiana Rosa do outro. Lisa Bela mesmo ao meio.
 
A minha avó chamava-se Isabel mas eu chamava-lhe só avó. Para quê dar-lhe um nome se a minha avó era única? A minha avó criou um filho, também ele único, que teve sempre duas mães. Viu-o crescer numa planície imensamente curta para a sua grandeza. Ver-se forçada a mandá-lo para longe deixou-lhe marcas que tempo nenhum foi capaz de sarar.
 
A minha avó morada na rua principal da vila, mesmo em frente ao nosso bairro, numa casa comprida, de quartos sufocantes, sem janelas, que desembocava num quintal de muros baixos, onde havia um cão vadio, mas com licença e caderneta, e um casal de animais. Viveu sempre de postigo aberto. A nossa vida era também, naquela altura, a vida que era dos outros.
 
Viu nascer os dois netos com um intervalo de onze meses. Criou-os, na preocupação silenciosa de que o mal pudesse, um dia, chegar. Chorou a vida inteira nunca os ter visto baptizados. Criou dois netos mas deu de comer a muitos outros que nunca tiveram avó. Papossecos com marmelada que ela mesma fazia e canecas de café com leite. Rodilhas folhadas e garrafas de sumo Garcia em dias de aniversário. Isostar e fatias d’ovo antes das corridas do 25 de Abril.
 
Contrariamente ao meu irmão, passei a maior parte da vida a achar que alimentar-me era um acto altamente sobrevalorizado. A minha avó munia-se de todos os truques existentes no universo para me fazer ingerir fosse o que fosse. E, se por milagre dos deuses, nalgum momento eu dizia que gostava de bacalhau com pimentos assados ela arranjava maneira de o pôr na mesa numa questão de minutos. Isso ou sopas da panela. Ou qualquer tipo de carne, desde que me dissesse que era de um dos nossos coelhos. Os bolos que fazíamos eram sempre de laranja. E foram sempre os melhores bolos do mundo.
 
Na altura do Carnaval as irmãs juntavam-se a ela. Preparar a época era um acto que envolvia todas as mulheres da família. Começava-se por retirar todos os objectos dos móveis da cozinha. Depois passavam-se vários dias a fazer recheio, a amassar, a moldar e a fritar centenas de pastéis de grão e borrachos, que haviam de repousar em cima de qualquer superfície plana da casa e ser, posteriormente, distribuídos por toda a vizinhança. Lembrar-me-ei sempre da minha avó de bata e lenço na cabeça, braços enfarinhados, a explicar-me, com um sorriso genuíno, como rechear alguns dos pastéis com algodão, para oferecer aos vizinhos menos amigos de dar. Normalmente, calhavam ao Zé da Alice, dono da mercearia, e ao Zé Maria da Mariana Mota.
 
Em Setembro, havia um dia específico em que madrugávamos. A minha avó pegava em mim, no meu irmão e no meu avô e lá íamos, a pé, à feira dos queijinhos, assim que o sol nascia. A feira era só isso – queijinhos. Bancas e bancas de queijinhos. E homens e mulheres de navalha em punho, a dar-nos de provar. Os sacos que trazíamos haviam de durar até ao ano seguinte.
 
A minha avó era uma pessoa de medos. Havia nela um nervosismo intrínseco que nunca compreendi. O meu pai trabalhava sempre até tarde. E ela ficava, de pé, atrás do postigo, pela madrugada adentro, incapaz de adormecer até ouvir o carro cruzar a rua. Chorou  de preocupação durante duas semanas quando os meus pais me deixaram, aos 13 anos, ir a uma viagem a Londres. Parte dela morreu quando nos mudámos para Beja para ficarmos mais perto da escola para onde haveríamos de ir.
 
Era uma mulher de fé e quando lhe perguntei quem era esse tal de deus disse-me que era um homem grande, que estava em todo o lado. Ainda hoje, a única imagem que tenho de Jesus é a de um gigante, magro e com barba, com uma perna enorme à entrada da vila e a outra junto ao largo da cascata da Vidigueira.
 
A minha avó dizia que eu e o meu irmão lhe fazíamos a cabeça em água. Todos os dias discutíamos um com o outro. Depois uníamo-nos para discutir com ela. Ou com outra pessoa qualquer. Certa tarde de inverno decidimos que já não queríamos ser amigos do nosso vizinho do lado. Pegámos em todos os marcadores que tínhamos e riscámos-lhe as paredes da rua. Guardo, com uma ponta de remorsos, a imagem da minha avó, com um lata de cal na mão, a pintar a casa do João Paulo, à chuva, antes que a mãe dele chegasse e denunciasse a nossa decisão aos meus pais.
 
Com ela aprendi o significado do amor. Nunca a vi dar um beijo ou um abraço ao meu avô, nunca os vi de mãos dadas nem a dormir na mesma cama. Ele ressonava e ela não estava para isso. Mas ouvia-a dizer-lhe: tomara que tu vás primeiro que eu, homem, que sem mim não te governas! E foi através desse romantismo rude, característico das gentes do campo, que percebi que, de facto, eles se amavam.
 
A minha avó dizia que o 28 era o seu número. Nasceu em 1928, a 28 de um mês que já não recordo, casou aos 28 anos e veio a falecer a 28 de Setembro de 1999, deixando o homem sem saber como se governar. Recuso-me a fazer contas para saber que idade tinha ao certo. A minha avó há-de ter sempre 68 anos. E eu hei-de ter sempre saudades suas.

14 maio 2015

mãe-mártir

Ser portuguesa é o mesmo que ser mãe de um toxicodependente. Ser portuguesa é ter um filho enfermo, pútrido, decadente. Um filho que se estende a milhares de rostos, todos eles máquinas de ruína e destruição. Ser portuguesa é ser mãe-mártir. É ter deveres, encargos, obrigações. E poucos, nenhuns, direitos – que direitos poderá uma mãe reivindicar na relação com o seu filho?
 
Afinal, ser portuguesa é ter não um, mas 563.500 filhos, todos eles enfermos, pútridos, decadentes, ruinosos, destruidores. Ser portuguesa é ter uma casa cheia de gente parida, alimentada, educada, amparada. Gente ingrata, mal-agradecida, exigente. É, ainda assim, continuar a sustentá-la. É continuar a contribuir, em prol da moral ou do afecto, para o propagar de uma nódoa que se estende e contagia.
 
Ser portuguesa é fazer um investimento a fundo perdido. É nascer já com dívidas. É ter um bando de rebeldes sem causa, vazios de ideais, acéfalos, parasitas, a sugar-lhe a mama e os ossos. Ser portuguesa é ter como único fim morrer raquítica, enfezada, mirrada.
 
Ser portuguesa fez-me mãe de 563.500 filhos (da puta, suponho eu). Tenho 563.500 filhos, funcionários públicos, que me deveriam prestar contas e servir, mas que me roubam e ultrajam. Tenho 563.500 filhos que me ameaçam, me maltratam, me burlam. Tenho 563.500 filhos incompetentes, incapazes, imbecis. Tenho 563.500 filhos que só me dão desgostos. Tenho 553.500 filhos e todos eles me envergonham.
 
Os que me deveriam dar alguma segurança social usurpam-me o chão. Os que me deveriam ajudar a ter equilíbrio financeiro esvaziam-me os bolsos. Os que me deveriam tratar da saúde arrancam-me o pêlo. Os que me deveriam fazer justiça ignoram-me. Os que me deveriam proteger intimidam-me. E sempre que peço justificações, todos me dizem: não fui eu! Como se fosse apenas mais uma tablete a desaparecer da gaveta da cozinha.
 
Ser portuguesa é ter 563.500 filhos toxicodependentes e ser vítima constante de violência doméstica. Ser portuguesa deveria dar direito a viver em casas-abrigo. Ser portuguesa é, todos os dias, desejar ser estéril.
 
(Ser portuguesa é ainda ter, pela primeira vez, um texto repleto de erros e não saber sequer como o corrigir).

09 janeiro 2015

non, je ne suis pas Charlie

Non, je ne suis pas Charlie. Je ne suis pas Charb. Je ne suis pas Cabu. Je ne suis pas Wolinski. Je ne suis pas Tignous. Je ne suis pas Oncle Bernard. Não sou, definitivamente, o Charlie. Nem eu nem uns certos 90% dos que, nas últimas 24 horas, se despojaram de identidade para envergar a imagem do jornal satírico francês, vítima de atentado. Je suis Charlie?! Deixem-me rir! Essa história não é minha. Vous êtes Charlie?! Deixem-me rir! Essa história não é vossa.
 
Desenganem-se, meus caros! Nenhum de nós é o Charlie Hebdo. Porque ser o Charlie não é elevar uma imagem numa capa que tem a dimensão efémera de uma volta da Terra sobre si própria. Ser o Charlie não é uma explosão passageira de revolta e indignação, iluminada sob os holofotes, sedentos e esfomeados, da opinião pública, que amanhã se orientam para outro alvo. “Pois é, pois é, há quem viva escondido a vida inteira”. Esses somos nós. E definitivamente, não somos o Charlie.
 
Je suis Charlie. Mas depois visto a farda, aperto as algemas, amordaço-me (ainda assim não diga o que penso) e encolho-me, num clima de medo e opressão de onde nunca sairei totalmente viva, para arrecadar, lá para os últimos dias do mês, um ordenado menos que mínimo, que me despeje de dignidade. Eu sou o Charlie? Deixem-me rir!
 
Vous êtes Charlie. Mas depois balizam a informação consoante as linhas do poder político e económico, ainda assim não chateie uns ou aborreça outros. Mas não é por medo que se cortam linhas de texto ao toque do telefone. Não… Não é por medo que se trocam manchetes, desaparecem entrevistas, se arredondam factos. Não… A isso chama-se responsabilidade, consciência, sobrevivência. Interesse! Vocês são o Charlie? Deixem-me rir! “Você nunca lamberam uma lágrima.”
 
Seria o mundo o fosso de desumanidade como o conhecemos se todos os que hoje envergaram a marca Charlie Hebdo o fossem de facto? Seria o mundo um antro mais de ratos que de homens se todos os que hoje se cobriram com a imagem do Charlie Hebdo se exprimissem tão livremente como ele?

Querem ser o Charlie? Então, revoltem-se. Ergam-se. Ajam. Mas façam-no com inteligência, com sabedoria, com empenho. E talvez, se começarem ainda hoje, em 45 anos possam envergar a tal imagem, sem que a mesma pareça ridícula e ofensiva. Até lá, tenham vergonha!

27 novembro 2014

'O que não baila nem canta/ Por certo não sabe amar."

Chamava-se António Luís Ferro. Chamavam-lhe o jardineiro.  António Luís era meu avô.  E eu era a neta do jardineiro. Ainda hoje, nas terras que me ampararam as quedas da infância, eu sou a neta do jardineiro. Sê-lo-ei sempre entre os mais velhos.
 
- Não sabes quem é? A neta do jardineiro. Foi criada aqui com a gente. Depois abalou.
 
Nunca vi o meu avô sem ser em mangas de camisa. Nunca lhe vi as mangas arregaçadas sobre os braços. Nunca vi o meu avô dormir. Mas sei que, a par com as horas sagradas da refeição, era essa a única altura em que tirava a boina da cabeça para a pousar no tampo da cadeira, mesmo ao lado da cama. Era esse o último gesto de um dia inteiro. E o contrário, o primeiro de cada nova manhã.
 
António Luís – o jardineiro – tirou da terra uma vida inteira. Deveu à terra. Como a terra lhe deveu a ele. Acertaram contas há um par de anos. António Luís nunca tirou a carta nem teve carro de besta. Deu uma saca de melancias a um vizinho que passava na travessa e trouxe duas pasteleiras. Não me lembro de algum dia o ver pedalar. Trazia-as sempre à mão, uma de cada vez, com o fruto dos dias de trabalho. Tinha um punhado de oliveiras, alguns metros quadrados de meloal e um casal de animais. Ora dois porcos. Ora duas cabras. Ora dois borregos. Nunca mo disse mas sei que sempre soube que vida que era vida tinha de ser vivida a dois.
 
António Luís nunca andou à escola. Não sabia ler mas sabia as letras. Juntava-as todos os dias, ao final da jorna, da forma que mais sentido lhe fazia, num bloco de notas que trazia dentro da algibeira com um terço de um lápis. Um dia ofereci-lhe um lápis inteiro. Novo. Afiado. Bonito. Recusou-o. Não lhe dava jeito porque o tamanho era maior que o da carteira e da navalha.
 
António Luís viveu a vida inteira numa Vidigueira de sol, solidão e cal. Nunca viu o mar. Salvo as escassas visitas a Lisboa, pouco conheceu das estradas nacionais. Homem sábio, génio das lides que eram as suas, não creio que algum dia lhe tenha sentido a falta.
 
Sei que uma vez foi a Beja a pé, levar uma vaca doente ao veterinário. Demorou três dias. Às portas da cidade o animal deu de si. António Luís teve mais três dias de caminho para pensar naquilo que havia de dizer ao patrão.
 
O meu avô era homem de poucas falas. Também nunca o ouvi cantar. Mas sei que o fazia, na venda junto ao mercado, ao sabor do vinho do trabalho. Um alentejano nunca canta sozinho. E o meu avô não era excepção. Diz quem o ouvia que tinha boa voz. Um dia, já cansado, disse à minha avó que se queria juntar aos cantores.
 
- Estás velho. Faltam-te dentes. Vais lá agora para os cantores… Acomoda-te, homem!
 
António Luís voltou à venda, onde todos os homens haviam nascido cantores. Anos mais tarde juntou-se à terra. E a neta do jardineiro abalou.
 
Volvida uma mão cheia de meses de emigração, jantei com um amigo num restaurante argelino em Londres. Ouvi cante. Ouvi o cante numa língua que não conhecia. Ouvi talvez o cante numa das suas versões mais primitivas. Virei-me. Em vez de alentejanos dei de caras com árabes.  Mas as lágrimas vieram-me na mesma, sem vergonha, aos olhos.
 
 
Nessa noite dei comigo mais perto de casa. Nessa noite o cante voltou a ser elo entre os homens. “Dá-me uma gotinha d´água”, cantei. “Dá-me uma gotinha d’água” talvez tenham eles respondido. Não sei o que diziam as palavras. Mas a moda, essa tinha, indiscutivelmente, a mesma alma. E a alma que as gentes trazem na voz ultrapassa todas as fronteiras da terra, todos os limites do horizonte.
 
Serei sempre alentejana. Serei sempre a neta do jardineiro. E hoje, quando ao cante é atribuído o título de Património Cultural Imaterial da Humanidade, “quero cantar/ser alegre/ que a tristeza nada tem/ eu nunca vi a tristeza/ dar de comer a ninguém”.
 
 

18 novembro 2014

corja

(a propósito das intoxicações no call centre da PT em Beja)
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Trabalhar num call centre da PT é a prova maior do meu fracasso. É a imagem reflectida no espelho da minha própria derrota. Falhei. Falhei como ser humano. Falhei como profissional. Falhei como sonhadora. Falhei, principalmente, como lutadora. Mas já não é vergonha o que sinto. Até a vergonha foi substituída nesta escalada de falhanços contínuos.
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Hoje o que sinto é revolta, é repulsa, é nojo, é ódio. E esse ódio é tão profundo que todas as palavras são insuficientes para o descrever. Falhei, é um facto. Falhei comigo própria. Quanto muito falhei com aqueles que investiram em mim. Mas só a mim e aos que depositaram em mim aspirações desiludi. Agora os outros...
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Não posso culpar o mundo, que ele chegou cá primeiro que eu. Não o posso culpar porque sou eu quem está em dívida. Mas posso, sim, culpar as gentes que o governam, que o ordenam fracassado, numa escala em tudo superior à da minha insignificância. Posso, sim, culpar patrões sem escrúpulos. Posso, sim, culpar governantes sem olhos. Posso, sim, culpar, um país sem rumo, desgovernado, impune.
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Culpo, sim, quem me trata como um número. Culpo, sim, quem me controla, a vermelho, sem me comandar. Culpo, sim, quem me exige um destino sem me orientar a viagem. Culpo, sim, os filhos da puta que me escravizam, que me exploram, que me humilham.
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Culpo-os porque me fecham numa sala com centenas de seres cada vez mais desumanizados mas a enfeitam com o melhor que a tecnologia oferece. Ao menos aqui há ar condicionado! Ao menos aqui eu adoeço com o ar condicionado e não com o vento frio e a chuva. Ao menos aqui há equipamentos modernos como head sets, telefones e computadores e o contacto é indirecto! Ao menos aqui perco audição e visão com head sets, telefones e computadores e não com a voz estridente e o bafo a tabaco e café dos clientes. Ao menos aqui fazes desporto porque um elevador gasta mais que 25 frigoríficos! Ao menos aqui emagreço porque perco o tempo para comer a chegar à cantina. Ao menos aqui pagam-te! Sim, ao menos aqui pagam-me. Mal. Muito mal. E com uma parte considerável num cartão de refeição para gastar num circuito que eles, os filhos da puta, controlam. Ao menos aqui os bichos são pequenos! Sempre é melhor ser picado por piolhos de pombo do que mordida por vacas. Sempre é melhor sofrer intoxicações do que ser picada por piolhos.
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Mas hoje sinto-me também agradecida. E o agradecimento é quase do tamanho da revolta, da repulsa, do nojo e do ódio. Agradeço os 11 meses que trabalhei sem férias. Agradeço-o porque foram eles que me salvaram nos últimos dias das dezenas de intoxicações ocorridas no imponente edifício, pólo de desenvolvimento e empregabilidade na região.
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Talvez este seja, no fundo, o pensamento estratégico que é agora exigido às empresas. Ainda que trabalhadores precários, o seu despedimento em massa poderá causar uma má imagem à grandiosa PT. Mais vale matá-los, que assim não se queixam. O infortúnio é sempre mais silencioso do que a agitação. Genial.
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A pseudo-Autoridade para as Condições de Trabalho esteve no local no sábado mas no domingo as portas abriram para receber os felizes sobreviventes. Hoje a situação repetiu-se, com dezenas de internamentos, mas amanhã ou depois as portas reabrem.
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Até quando ficará esta corja impune?

21 agosto 2014

Matilde,

Hoje sinto a tua falta tanto quanto em todos os outros dias. Mas tu sentes hoje o dia diferente. Ainda que em todos os outros, nesta volta imensa em que a Terra contorna o Sol, a saudade tenha o tamanho do peito inteiro aberto, hoje ela expande-se, contorce-se na ânsia maior de abrir caminho e conquistar espaço, empurrando os ossos, apertando o que sobra, sufocando a alma, desassossegando os fantasmas que habitam, há muito, o coração.
 
Todos os dias são iguais em minutos e dimensão nesta tua ausência, sempre tão mal quebrada. Mas por hoje o dia te ser diferente, é-o também para todos nós. Porque cada dia teu é também um dia nosso. Ou deveria sê-lo, no mundo de harmonia e equilíbrio que sonhámos para ti.
 
Hoje dobramo-nos sob um silêncio inquietante, de turbulência contida mas em constante estado de ebulição. Esperámos-te nas horas caladas, quietas, infinitas. Nunca chegaste. E se sabemos porquê esperamos que nunca o venhas a entender. Porque entendê-lo significaria perder pedaços. E os pedaços que se perdem deixam crateras que, expostas às impurezas, são difíceis de sarar.
 
Um dia explicar-te-emos o amor. Explicar-te-emos o amor como ele é e não como te contam as fotografias. Um dia plantamos uma árvore. E damos a cada um dos ramos um nome: Matilde, Pedro, Pai, Avó Inô, Tia Lisa, Tia Mila, Tio Nuno, Zé Diogo, Tio Tói, Tia Gina... Juntamos ao nome desses ramos todos os outros que hoje se juntaram a ti. Havemos de regá-la e vê-la crescer, forte e bonita. Porque os ramos protegem-se uns aos outros, abrigam-se, defendem-se, criam estrutura, sobrevivem unidos. Como na vida, os ramos precisam uns dos outros, sem egoísmos, sem confrontos, sem tumultos, sem excepção.
 
Uma parte de nós faltou-nos hoje. Fomos esquissos, esboços, seres humanos inacabados. Uma parte de ti faltou-te também, mesmo que hoje ainda não o saibas. Porque todos nós somos, indiscutivelmente, pedaços uns dos outros. Somos sangue, somos carne, somos osso, memória, afecto. Amanhã esperamos novamente por ti. Trata de não te demorares.
Tia Lisa.
Beja, 20 de Agosto de 2014

24 março 2014

egoísmo

Choro às vezes a inquietação. Quando os outros arrastam os pés e a míngua no chão. Grito insatisfação, sabendo-me já satisfeita. Faço do trabalho maleita. E da utopia da solidão comunhão. Vejo gente na rua, murmurando agoniada. Ou lambendo tristezas à ombreira da porta constantemente cerrada. Vejo pobreza envergonhada. E finjo não perceber.

Ameaço o vazio, nos ataques afoitos do silêncio. Estremeço por dentro. Trago ingenuidade nos braços e descontentamento na alma, quando faço do mundo fantasia e fecho os olhos à desgraça.

Choro às vezes inconformismo. Quando choram os outros a dor. Falo dos males da mente, de desilusão e desamor. Mas que sei eu de angústia ou de medo?
Vejo gente a morrer por dentro, já moribunda por fora. Inalo o fumo de mais um cigarro e finjo fazer das minhas batalhas vãs glória.
Lamento um amanhã que há-de chegar igual. Lamento as viagens que só faço nas linhas do papel. Lamento o meu próprio lamento. Porque exibo revolta nos olhos e os outros cicatrizes na carne, fome na boca e doença no peito.
Não sei da rudeza da vida porque dela nada conheci. Sei de sonhos, imaginação e magia. Sei, sim, de fantasia. Ainda assim, vagueio sozinha, sofro males que ali não estão - um ser ridículo a enfrentar inimigos de cartão.
Às vezes choro anseios e frustrações. Invento tumultos. Mas que mais sou eu que um bicho egoísta, narcisista e inculto, certo de já nada querer saber?

15 janeiro 2014

ecossistema

Desenharam um perímetro quadrado à volta do mundo. Ergueram-lhe em cima quatro andares. Lacaram as janelas e cerraram as portas. Alçaram barreiras e pontos de controlo. Vestiram sentinelas à entrada. Atribuíram a cada elemento um código e aniquilaram-lhe a individualidade. Desinfectaram-lhes o cérebro com lixívia e rasparam-lhes, a espátula, os restos tanto da alma como da memória. Depois adornaram de silêncio os corredores. Foi só esperar!
 
Fecharam o mundo à passagem do universo e eu não me apercebi. Criaram um ecossistema e baniram-no da influência das estações do ano. Forjaram a dinâmica imparável da vida. Conceberam um protótipo e dedicaram-se à reprodução sistemática de uma única espécie. Inventaram um dialecto e estabeleceram leis irrevogáveis. Fizeram propagar um sistema hierárquico assente na perpetuidade. As raízes cresceram. E depois foi só esperar.
 
Redesenharam o conceito de sociedade, de onde deportaram de imediato o livre arbítrio. O bilhete, que era só de ida, tinha selado a azul o espaço branco destinado à democracia. Não havia também vaga para a justiça ou a igualdade. O edifício eleva-se, contudo, no centro da metrópole como o presídio mais imponente dos tempos modernos. Foi só esperar!
 
Os bichos desenvolvem-se, confinados à rijeza sórdida das normas. Adaptam-se. E, quando se multiplicam, são mais dos mesmos. Exemplares-padrão, imaculados por fora, pútridos por dentro. São registos sonoros, sem alma ou memória, que repetem a ladainha sem balbuciar. São víboras que se esqueceram que a função do veneno era proteger e não atacar. Incapazes de vencê-los, juntaram-se a eles. Foi só esperar!
 
Cerraram o mundo às portas do universo e eu não me apercebi. Às vezes tenho medo que seja apenas uma questão de tempo.

20 novembro 2013

defunto


Matei de fome o monstro que me zumbia aos ouvidos e agitava o cérebro. Devo tê-lo matado também de tristeza, inércia e desapontamento. Mas a fome foi fatal. Matei-o várias vezes, ouso afirmar. Matei-o, por último, com determinação e empenho. O acto exigiu preceito e a perícia dos métodos meses inteiros de aperfeiçoamento. Mas está morto e é o que interessa. Agora ouço o silêncio.

Comecei por ficar um dia sem televisão. Não comprei o jornal. Li as manchetes nas redes sociais. Não fiz o esforço de abrir nenhuma. Fiquei um dia sem televisão e depois fiquei outro. E outro e outro e outro. Quanto mais dias passavam mais natural se tornava a abstinência. Liguei-a quando deixei de lhe sentir a falta. 

Os mesmos jobs for the boys. Os mesmos boys for the jobs. Não senti nada. A crise. A contenção. Os cortes. Nada! As greves. Os protestos. As manifestações. Qual é o motivo de hoje? Nada! Os professores, os pais, os putos. Nada! Os sindicatos e as associações. Nada! As aldrabices de uns ministros e as patacoadas de outros. Nada! A injustiça. A desigualdade. A assimetria. Nada! 

Não era suposto a informação conter sempre algo de novo? E por “novo” não quero dizer “um pouco mais”. “Um pouco mais” não é “novo”. É só “um pouco mais”. Um pouco mais de jobs for the boys. Mais alguns boys for the jobs. Um pouco mais de crise. Um pouco mais de contenção. Um pouco mais de cortes. Um pouco mais de greves. Mais protestos. Mais manifestações. Mais professores, pais e putos. Mais sindicatos e associações. Mais aldrabices. Mais patacoadas. Um pouco mais de injustiça. Um pouco mais de desigualdade. Um pouco mais de assimetria. Vítor Gaspar nomeado por Durão Barroso conselheiro da UE? É só um pouco mais de José Sócrates como comentador da RTP. Elucidam-me! 

Volvido um pouco mais do mesmo, Portugal apura-se para o Mundial. Fico indignada. Mas como o monstro já foi a enterrar só me indigno um bocadinho. O mesmo bocadinho que dura o entusiasmo dos outros. É que há cozido de couve para o jantar. E doem-me os dentes. E as costas. E tenho cigarros para fumar, um café para beber e uma pessoa à espera. 

Quando adormecer vou ter pesadelos. Ainda os dentes e as costas. E as contas. E a crise. E a contenção. E os cortes. Os meus, que não tenho cérebro para me ocupar dos dos outros. 

Candidatei-me a um concurso público antes das autárquicas. O partido manteve-se no poder mas o concurso foi anulado logo depois. Acalma-me não ter votado nele. Alertei o patrão para o facto de, entre o processo de revisão de texto e paginação, alguém ter colocado gralhas num dos artigos que escrevi. Fui despedida. Só soube quando deixei de ver o meu nome na ficha técnica. Perguntei à minha mãe por que não tinha sorte. Ela riu-se e tirou-me o peso de cima.

Quando adormecer vou ter pesadelos. Amanhã continuo a acordar desempregada. Mas agora que o monstro se foi não tenho força para me indignar mais. Vou só ali dormir.

12 outubro 2013

monólogo

Dizem que sim. Sublinham que não. Ordenam que faça. Informam que não deveria ter feito. Avisam que é agora. Reclamam que foi tarde. Relembram que é cedo. Apresentam gráficos. Baseiam-se em experiências. Apontam historiais. Rasuram percursos. Elaboram mapas. Mostram indicadores. Indicam consequências. São claros. E coerentes. E racionais. E lineares. Mas são muitos. Têm muitas vozes. E falam todos ao mesmo tempo. E atropelam-se. São bichos irrequietos. Eu ouço. Mas não ligo. E, ainda assim, são incapazes de sossegar.
 
Então e se se calassem, ó criaturas persistentes?
 
Às vezes falo sozinha. Às vezes falo comigo. É que falar sem plateia pode levar a um diagnóstico precoce de loucura e esta parece-me uma forma inteligente de contornar os sintomas iniciais. Para além disso, falar comigo não é bem o mesmo que falar sozinha. É antes enfrentar uma multidão de rostos iguais ao meu mas que envergam expressões faciais distintas. Muitas delas que desconheço.
 
Falar comigo poderia ser o mesmo que falar sozinha. Mas não é. Está longe de ser um monólogo. É um circo de gente demente, disfuncional e anti-social, que se aglutina em raiva e ergue a voz. Que entoa palavras de ordem desordeiramente, desordenadamente. Que empola tensões e grita e esbraceja e ameaça com respostas a perguntas que nem sequer formulei. O problema é que neste hemiciclo de alucinados não há espaço para moderadores.
 
Então e se se calassem, ó criaturas irritantes?
 
Às vezes falo comigo em voz alta. Escutar a materialização dos vocábulos fá-los parecer menos absurdos, parece-me. Confere-lhes alguma ordem. Dar-lhes uma forma que é sonora, e tem tom e timbre e ritmo, afasta-os da clausura. Afasta-me a mim da insanidade. Parece-me. Dá-me uma certa sensação de poder, superioridade, autoridade. Sinto-me maior. Mais forte. E agora, como é, que falo eu mais alto? Mas as criaturas histéricas e desequilibradas continuam a lançar-se contra os ossos do crânio em debandada, inutilizando o meu próprio ruído.
 
Então e se se calassem?
 
Mas não. Não se calam. E a mim não resta saída senão dar-lhes ouvido. Apregoam as convenções que se deve valorizar a igualdade de oportunidades. Que assim seja, então. Uma de cada vez. Uma de cada vez, já disse. Assim, hoje digo que sim. Amanhã que não. Hoje faço. Amanhã lamento ter feito. Hoje conformo-me com o agora. Amanhã reitero ser tarde. Depois hei-de defender ser cedo.
 
Pode ser?

12 agosto 2013

meretriz

A certeza é um bicho doente, incoerente, esquizofrénico, bipolar, demente. Não tem alma nem razão. É vagabunda, viajante, turista, passageira. É um animal assustado, que vai e vem, vai e vem, sem ficar, sem se reter, sem se deter. Cria caruncho e salitre debaixo da pele. Incha. Empola. Inflama. Esventra, esburaca e aloja-se quando chega. Arranca carne quando parte. E quando parte é sempre de repente, sem aviso prévio, sem margem de segurança que me permita proteger-me.

Deixa-me sempre abandonada. Trai-me. Chicoteia-me. Arranca-me pela raiz como a uma erva daninha. Fragiliza-me. Puxa-me o chão. Deixa-me os membros à vontade do vento e o peito entregue à tempestade. A certeza: bicho execrável. Que envenena, que embebeda, que mata lentamente, à velocidade oscilante dos seus avanços intempestivos e das fugas irracionais.
Faz-me estremecer. Traz o frio de volta às entranhas. Implanta-o, ainda embrião, e fá-lo crescer. Alimenta-o. Acaricia-o. Depois despe-me. Faz de mim esqueleto, vazio de promessas, sedento, faminto. Quando me ergo derruba-me. Quando caio pontapeia-me. Estende-me a mão, forasteira, vadia e mentirosa. Abraça-me o tronco, levanta-me o peso, faz-me levitar, para me afogar no abismo das minhas inseguranças. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Uma. E outra vez.
Desmantela-me. Destroça-me. Arruína-me. Arreia-me as âncoras. Faz-me perder o norte, o rumo, o sentido. Comanda-me como a um fantoche. Faz de mim o que quer. Manipula-me. Possui-me. Domina-me.
A certeza: essa meretriz, prostituta, galdéria, mulher da vida. Alcoviteira. Altiva, imponente, convencida. Puta. Vendida. Que vai e vem. Vai e vem. Sem se deter.

02 agosto 2013

agosto

Ela usava um vestido vermelho de alças que lhe batia abaixo dos joelhos. Não me lembro se o vestido de alças a bater-lhe abaixo dos joelhos era completa ou apenas parcialmente vermelho. Sei que o vermelho era a cor principal. Sei que calçava uns chinelos de enfiar no dedo. Sei que tinha o cabelo preto e curto. Sei que descia o degrau único da entrada de casa. E que carregava de sacos, roupa, brinquedos e almofadas o nosso velho Subaru azul escuro. Sei que em nenhum outro dia a minha mãe me pareceu tão bonita. Sei que ela não sabe disso.

Sei que a noite já ia longa e havia estrelas. Sei que a noite tinha uma longevidade apenas atribuída à noite mais singular de cada ano. Sei que Julho ia a meio. Sei que Agosto havia de tardar. Sei que cheirava a frescura, sem saber o que de fresco poderá originar aquele aroma. Sei que eu e o meu irmão corríamos, eufóricos, pelo bairro com os outros miúdos. Sei que nessa noite éramos mais amigos do que nunca. Sei que a minha mãe estava cansada mas serena. Sei que o meu pai lia na sala. Sei que íamos dormir à pressa, já exaustos. Sei que íamos de férias. Sei que estávamos felizes.

Sei que os meus avós viriam de manhã despedir-se. Sei que nos beijavam como se estivéssemos prestes a emigrar. Sei que às vezes o Snoopy também aparecia. Sei que iríamos apanhar a minha tia no caminho. Sei que iríamos fazer birra para decidir quem ficava com o lugar ao meio. Sei que o meu irmão me iria vencer pelo cansaço. Sei que iria ficar a ver a paisagem passar com o nariz colado à janela do lado direito. Sei que, de meia em meia hora, iríamos perguntar se já estávamos perto. Sei que essas meias horas tinham normalmente menos de trinta minutos. Sei que a estrada com árvores nas bermas que se cruzavam no céu me fazia imaginar um mundo de fantasia. Sei que iria enjoar na viagem. Sei que haveríamos de parar no Cercal e que aí, sim, eu saberia que estávamos quase lá. Sei que havia sempre música no carro.

Sei que haveríamos de comer gelados de pistacho e de ir ao cinema Girassol. Sei que o meu irmão levaria, todos os dias, uma cadeira e uma prancha para a praia. Sei que eu levaria livros de banda desenhada e a minha toalha. Sei que foi em Milfontes que o meu pai me comprou O Principezinho. Lembro-me de o ouvir dizer que deveria ser de leitura obrigatória nas escolas. Sei que a minha mãe não entraria na água dias a fio. Sei que os obrigávamos a levar-nos de barco à outra margem do rio. Sei que a minha tia cortou um pé a descer, descalça, uma falésia junto ao farol para não sujar os sapatos brancos. Sei que a sua rebeldia me fascinava. Sei que as últimas duas semanas de Julho eram as mais felizes das nossas vidas. Sei que Julho chegou ao fim. Sei que a última vez foi há demasiado tempo.

Sei que Agosto arrancou e que eu me sentei a ler no mesmo café de sempre. Sei que o rapaz parou à minha frente e me disse que eu devia ser uma pessoa muito inteligente. Sei que fiquei sem saber o que lhe responder. Acho que sorri.

Sei que entrou uma menina com a mãe, que não chegou sequer a sentar-se. Sei que, de um momento para o outro, a menina de vestido bonito abafou o som do novo disco dos Queens of the Stone Age, perante o olhar indiferente da mãe de ar jovem, moderno e irritante. Sei que a menina que deveria ser bonita me pareceu a criatura mais abominável do planeta. Sei que os seus gritos ininterruptos me invadiram todo o espaço vago do organismo, contraindo-me os músculos e rachando-me a paciência. Sei que, pelo menos por duas vezes, os pés me incitaram a levantar-me para gritar ofensas numa língua inventada tanto aos ouvidos da criancinha mimada como da mãe mal-educada e má-educadora. Sei que me estragaram as últimas páginas de um bom romance. Sei que nunca antes me apeteceu tanto bater em pessoas. Sei que Julho terminou. Sei que amanhã vou à praia. Sei que Agosto nunca me saberá ao mesmo.

28 julho 2013

click

Às vezes olho para ti durante um período de tempo certo. Durante um período de tempo que tem uma dimensão exacta, precisa, perfeita, mas que não sei como contabilizar. Olho para ti entre a ausência de pressa e o desconforto da demora. E a harmonia desse instante, que não sei quantos instantes tem dentro, desconcerta-me.

Olho para ti sem te espreitar, sem te observar, sem te gastar, sem te esventrar, sem querer mais. Olho para ti só para te ver. Olho para ti porque te quero ver. Por isso olho para ti. E vejo-te. E os meus olhos gostam. E eu gosto também. 

Às vezes olho para ti e click. As fracções, que não sei se são segundos, minutos ou horas quase inteiras, rompem os parâmetros da temporalidade e apegam-se à memória já com o estatuto de fotografia. Têm margens brancas, o tamanho que vai do indicador ao polegar e notas soltas escritas a preto e à mão numa letra que não sei se é minha e cuja mensagem não decifro. Há lá algo mais juvenil que as polaroid.

Às vezes as fotografias que tenho de ti duram três passos. Às vezes duram um acorde. Às vezes duram a suspensão do ar entre uma inspiração e uma expiração. Às vezes duram o silêncio todo. Às vezes cabes nelas inteiro. Às vezes não. Em muitas estás em pedaços, esquissos, frestas, que só eu sei a que parte pertencem. Todas têm um movimento, imparável, indomesticável, infinito. Todas têm cheiro e temperatura e tonalidade e luz e sombra.

Às vezes o álbum salta-me à vista e eu olho-me de fora. Há um poial e dois copos de vinho, numa rua estreita de calçada torta mas onde o céu é maior. Há uma noite que não sei se é de primavera, se de verão fresco, se de outono morno. Há um braço sem rosto a pousar-me no ombro ao de leve e a sorrir. E eu aconchego-me. Há dois pares de olhos a sorrir-te. E há ternura e encanto e leveza e clareza. É o mundo a abanar-me os alicerces num sopro que é doce. É a criatura sem feições a piscar-me o olho e a confirmar o que a cegueira não queria que visse. É a criatura a rir-se de mim e a entregar-me o bilhete de chegada. Sou eu a abandonar, por fim, a teimosia crónica de me querer sempre errante. Brinde a nós.